수능: o dia D.

“Um ar de grande tensão paira em toda a Coreia do Sul (…). Uma força-tarefa especial passou meses se planejando para esse dia. Milhares de policiais estão em alerta em várias cidades (…). Voos em todos os aeroportos do país foram limitados, e um esforço especial foi feito para interromper obras, reduzindo ruídos de qualquer espécie”. 

Michael Seth em “Febre educacional: sociedade, política e o exercício da escolaridade na Coreia do Sul”. 

 

Amanhã é considerado um dos dias mais importantes na vida dos estudantes coreanos, o dia do 수능 (Suneung), em outras palavras: vestibular.

O 수능 é um exame nacional realizado toda Quinta-Feira da segunda semana de Novembro e é caracterizado pela principal via de acesso de estudantes coreanos nas Universidades do seu país. Após o Exame, os estudantes escolhem 3 Universidades de preferência e de acordo com suas notas, conseguem ou não o ingresso nas mesmas. O 수능 foi uma das principais fontes de inspiração para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) do Brasil.

Na Córeia do Sul, a educação primária é levada absurdamente a sério (os pais devem garantir acesso a Educação aos filhos para que no futuro eles possam ajudar sua família), e juntamente aos investimentos nessa área e à disciplina dos coreanos garantiu uma absurda ascendência da educação coreana em relação ao restante do planeta. Uma pesquisa realizada pelo Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), apresentou que a Coréia do Sul possui o segundo melhor Ensino Fundamental do mundo (considerando a área de leitura, ciências e matemática), atrás apenas da Finlândia. O mais espantoso disso tudo, é considerar que há exatos 60 anos, apenas cerca de 22% da população era alfabetizada. Hoje em dia esse percentual representa cerca de 98%. A porcentagem de pessoas graduadas no ensino superior já ultrapassa os 60%.

O boom na Coréia deveu-se obviamente ao investimento na educação, mas principalmente na infantil e somente depois no ensino secundário e universitário, garantindo o desenvolvimento de toda a sociedade. Algo muito curioso visto na Coréia também, é o quão grato os estudantes se tornam a suas Universidades, onde muitos utilizam o símbolo delas em seus negócios pessoais como sinal de prestígio. Além disso, muitas doações são feitas às Universidade por parte dos ex-alunos (coreanos ajudam coreanos).

Se tratando do 수능, amanhã é o grande dia. O dia das mães e irmãozinhos levarem doces para a porta das Escolas e distribuirem pros vestibulandos. O dia da polícia pegar os atrasados em casa e levar até a porta da escola. O dia do trafego aéreo ser desviado e as obras suspensas. O dia de metade dos jovens coreanos que não conseguirem uma boa nota pensarem se ainda vale a pena viver…pois nem tudo é tão perfeito por aqui.

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Jovem chegando no Suneung. Foto retirada de algum site cadastrado no Google.

*As informações dadas nesse post estão diretamente ligadas ao Sistema Internacional de Perguntas e Respostas feito aos meus colegas coreanos e sua veracidade é diretamente proporcional a minha compreensão da lingua inglesa-coreana e do conhecimento dos entrevistados.

Comida.

Já faz algum tempo que não publico nada, na verdade até escrevo, mas geralmente fico com preguiça de revisar, então possivelmente esse texto haverá mais erros que outros, visto que o ato de revisar não é bem a minha praia…hehehe

Muitos amigos têm me perguntado sobre a vida na Coréia de um modo geral e sobre os costumes dos coreanos. O problema é que é difícil falar algo muito específico sobre um assunto tão genérico, sendo assim, fica muito complicado conseguir organizar as ideias a respeito desse tema.

Entretanto, falar de cultura coreana e não citar a comida é até pecado, mas não por que é deliciosa, e sim por que é, no mínimo, singular. Hehehehe. Eu, particularmente, não sou a melhor pessoa do mundo pra falar da comida coreana, por dois principais motivos: não sei o nome de metade dos alimentos e não provei nem um quarto deles. Todavia, o pouco que conheci já deu pra tirar algumas conclusões, entre elas (a que melhor resumiu até agora) tem uma que um amigo certa vez disse: “Comida coreana pode ser de 3 tipos: doce, apimentada ou sem gosto”. E é exatamente isso. As vezes até varia com um “mix” de doce e pimenta, mas 90% dos alimentos que eu provei aqui se encaixam nesse padrão. Pra um nordestino como eu, tudo falta sal, até o churrasco (que é de porco). Carne aqui só se for de porco, frango (pombo disfarçado) e marinha (na verdade há outras, mas isso é outro assunto). Boi é iguaria, no supermercado até vende, mas é cara. Acredito que muitos países na europa são assim também, então não é nada de outro mundo.

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Restaurante da SNU – uma das coisas que eu aprendi na Coréia: tudo que for vermelho é pimenta!

O que é de outro mundo na verdade é a pimenta. E o pior, se você for a um restaurante coreano, perguntar se um prato é apimentado e por acaso ele falar que não é: ELE ESTÁ MENTINDO! Hahahaha. A última vez que eu pedi um prato “no spicy”, foi um dos pratos mais apimentados que eu já comi na vida. Só como ideia, uma das comidas mais populares da Coréia do Sul é o Kimchi, que na minha opinião é muito apimentado, mas para muitos coreanos é um prato que não tem muita pimenta. Poucos estrangeiros que eu conheci realmente gostam de Kimchi, mas a maioria acha no máximo aceitável…hehehe

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Beef provavelmente apimentado.

No refeitório do dormitório da SNU (Universidade em que estudo) existem pratos pré montados nas refeições, os quais você pode escolher qual deles vai querer, e todo dia, no jantar, existe uma linha conhecida como “World Line”. Essa linha é formada por pratos típicos de outras regiões (da Ásia, ao contrário do que o nome diz) que você pode optar por comê-lo. Um fato curioso é que esses pratos são colocados geralmente das 18h às 19h, mas antes das 18:30h geralmente já acabaram, o que mostra que ATÉ OS COREANOS TÃO DE SACO CHEIO DA COMIDA DELES…hahahahaha

Brincadeiras a parte, o fato é que a alimentação coreana, pelo que tenho visto é de uma forma geral saudável e por isso eles se orgulham tanto dela. No ponto de vista de um ocidental, tudo parece um pouco estranho e os sabores demoram para se adequar ao paladar, mas colegas que já estão a mais tempo (2 ou 3 anos) falaram que com o tempo você começa até a sentir falta, o que mostra que é tudo questão de costume. De fato, não posso tirar conclusões com tão pouco tempo de convívio, mas uma coisa é certa: já deu pra sentir saudades do feijão com arroz! 🙂

A viagem e as primeiras impressões.

A viagem

Hoje faz 9 dias que saí de Recife pra passar um ano aqui na Coréia do Sul. Antes de chegar no meu destino final, passei dois dias em Dallas a fim de descansar do longo tempo de vôo (e bote tempo nisso). Texas dispensa comentários. Não só o Estado como também o povo, os Texanos realmente são um povo muito receptivos. O bacana dessa viagem foi a forma como tudo aconteceu. Em Julho me matriculei em um curso de inglês e por coincidência meu professor havia crescido em Dallas e sua mãe ainda residia por lá. Isso não quer dizer nada, ou melhor, pra qualquer outra pessoa do mundo seria apenas uma coincidência, mas não para a mãe desse meu professor. Eu nunca na minha vida imaginei que alguém que só tivesse me conhecido por email poderia me tratar como um filho desde a primeira vez q me visse, e foi exatamente isso que aconteceu. Passei dois dias em Dallas com a intensidade de 15. Conheci muitos lugares, experimentei diferentes tipos de comidas (o pai desse meu professor é um cozinheiro espetacular) e ainda tive direito a Cheesecake de aniversário (viajei dia 26 para Dallas e meu aniversário era dia 28/08). Foi sem dúvida, uma das pessoas mais bacanas que já conheci na vida. Espero que essa amizade dure por muito mais tempo.

Seoul – Primeiras impressões

O vôo de Dallas pra Seoul pareceu q não ia acabar nunca. 14 horas de viagem, mas 17h em 3 dias já haviam passado. Ao chegar no Aeroporto tive logo o primeiro choque: lotado, mas silêncio (coreano raramente falam alto em locais públicos, exceto alguns idosos, eles podem). A comida, o idioma, a forma de comunicação é completamente diferente. Desde a cultura de entregar dinheiro segurando as duas mãos, até entrar em locais retirando o sapato (até no banheiro da academia é assim). Mas uma das coisas que mais me impressionaram (e na verdade, ainda impressiona muito) é sem dúvida alguma o sentimento de segurança. Nossa senhora, eu ainda tou tentando me acostumar a não me preocupar em andar com o celular aparecendo. É impressionante como a honestidade é tão normal, que se preocupar com roubo parece algo paranóico. Pra começar, os coreanos não sabem o que é bolso, eles andam com o celular na mão (nunca vi um povo tão viciado em smartphone). Se você esquecer seu celular em qualquer lugar no shopping e só lembrar duas horas depois, pode ter CERTEZA que quando você voltar, ele vai estar lá (Isso ainda me impressiona).
A cidade é linda. Infelizmente ainda não tive a oportunidade de conhecer os principais pontos turísticos, pois minha Universidade é um pouco isolada (por falar em Universidade, eu nunca imaginei que pudesse existiir algo assim, a SNU vai ser um post à parte). Entretanto, o pouco que conheci me impressionou. Infelizmente eu tive um problema com meu cartão de memória e perdi a maioria das fotos que tinha tirado durante a viagem, portanto, até eu resolver isso, ficarei devendo mais fotos. Seoul foi construída em sobre montanhas, isso significa muito mais trabalho pra construir do que em terrenos planos, e nem por isso deixa a desejar em cidade alguma no mundo, muito pelo contrário, a malha do metrô sul-coreano, por exemplo, é de impressionar.
O metrô é subdividido em diversas linhas e é muito fácil de ir pra qualquer lugar da cidade, porque além de ser muito bem sinalizado, diversos aplicativos ensinam o passo-a-passo de como ir de um canto ao outro, e ainda diz o tempo do percurso total. Um problema seríssimo e evidente de Seoul é a super população. Imagine a população de São Paulo em uma cidade que tem um pouco mais da metade do tamanho da capital Paulista. O resultado é uma densidade demográfica mais de 40% maior que a de Tóquio. Quem pode falar bem disso é o pessoal que não conseguiu o dormitório da Universidade, tenho um colega que pagou cerca de 400 dólares por um espaço de aproximadamente 6m².
Os preços das coisas é fácil de entender: o que tem muita gente procurando e poucas opções é muito caro. O que tem em quantidade e muita gente procurando é barato, e o que sobrar é barato também. Dentro da Universidade cada refeição custa em média de 2,5 a 3,5 dólares. Enquanto que fora da faculdade elas variam entre 5 e 10. Obviamente que há locais mais caros, mas em média a comida é algo bem barato por aqui. A comida sem dúvida alguma merece um post só pra ela.
Infelizmente não posso escrever muito porque senão o texto fica muito longo e maçante, mas o que posso dizer é que tem tanta coisa bacana aqui que as vezes eu acho que vivo em outro planeta. A Coréia tem muita coisa pra ensinar e eu tenho muita coisa pra aprender. Espero que um ano seja tempo suficiente pra aprender o tanto quanto eu quero.

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Apenas mais um prédio entre os 200 da Seoul National University.

O blog e o “Porquê Coréia.”

O meu objetivo ao fazer este blog é de tentar relatar o máximo das novas experiências que vou passar neste ano em que estarei do outro lado do mundo. Sendo assim, além de manter meus amigos e familiares informados, terei algo para me ajudar a recordar deste ano, que promete ser um dos mais desafiadores da minha vida.

Antes de mais nada, gostaria de responder a pergunta que mais me fizeram nesses últimos meses: “Por que Coréia?” A resposta principal na verdade é também uma pergunta: “Por que não Coréia?”. A principio eu nunca tive nenhuma vontade louca de morar no Oriente, principalmente na Coréia do Sul, país o qual sempre conheci muito pouco (e a visão que eu tinha não era agradável). Assim, quando surgiu a oportunidade de me inscrever no Programa Ciências sem Fronteiras¹, procurei me informar bem sobre os países do Programa e assim que abriram as inscrições optei pela Holanda, que possui excelentes linhas de pesquisas na área de Engenharia Automotiva (área que eu me interessava, até então), além de possuir uma boa localização (Europa ocidental). Entretanto o destino (ou melhor, minha ignorância com a língua inglesa) não permitiu que eu fosse aceito pelo programa, visto que minha nota do teste de proficiência não tinha sido suficiente. Isso me obrigou a olhar para as minhas opções restantes, e foi aí que eu conheci a Coréia.

Minha nota de Inglês não era suficiente para ir em nenhum país do Programa sem a necessidade de um curso extra, entretanto, nesta condição, eu poderia optar por algum dos países (EUA, Canadá, Reino Unido, Coréia do Sul e Australia) que ofereceriam o curso. Dessa forma, fui obrigado a pesquisar sobre países em que até então não havia passado pela minha cabeça (ainda lembro da expressão da minha mãe quando falei em Coréia). E a partir daí, a pergunta “Por que não Coréia?” começou a aparecer com mais frequência do que eu imaginava. Descobri, por exemplo, que a Coréia era o país com maior índice de alunos do Programa estagiando (89%, enquanto a média dos outros países era de 27%), e muitos desses estavam estagiando em gigantes da Engenharia (como a Samsung, LG, Hyundai, KIA e Daewoo). Descobri que as Universidades coreanas em que muitos brasileiros estavam estudando, eram referências na minha área (Engenharia mecânica), incluindo a Universidade que eu me interessei desde o início (a Universidade Nacional de Seul), que segundo o ranking da THE², é a 36ª melhor escola de Engenharia do mundo. Além disso, a cultura coreana baseada no respeito ao próximo, na honestidade e princípios éticos estão nas listas das qualidades em que mais admiro nas pessoas. Ainda, seria a oportunidade de conhecer lugares que até então eu nunca conheceria, se não fosse dessa forma (até porque, geralmente quem tem dinheiro para ir do Brasil até a Coréia, geralmente opta por uma viagem menos longa (menos de 30h de avião, pelo menos)), como Tailândia, FIlipinas, China, Japão, entre tanto outros. Por fim, percebi que essa poderia ser uma excelente oportunidade para conhecer até que ponto pode ir a diferença cultural e o respeito pela diversidade de cada e a partir disso, me amadurecer como ser humano.
A partir disso, a pergunta “Por que não Coréia?” tornou-se tão frequente ao ponto de eu me decidir tentar e optar por fazer o teste do TOEIC³, que é um teste mais barato (200 reais mais barato) que o TOEFL4, o qual eu tinha feito antes, e só era aceito na Coréia do Sul. Dessa vez eu tive um pouco mais de sorte e tirei a nota mínima (EXATAMENTE a mínima) necessária para ir para Coréia, e o melhor de tudo, nem precisei do curso de inglês, que me faria passar mais meio ano fora estudando o idioma, além dos 12 meses que eu já teria de passar.
Assim, fui levado a conhecer mais sobre a cultura, os costumes e as tradições desse povo que cada dia me encanta mais. Fui aceito na minha primeira opção de universidade (a Universidade Nacional de Seul) e tenho conhecido pessoas com histórias semelhantes a minha e dispostos a enfrentar esses desafios tanto quanto. Ao mesmo tempo, que tenho sentido na pele a saudade (e não é pouca) das pessoas que ficarei longe durante esse ano, imagino que o que vou levar pra vida tem uma proporção muito maior do que eu possa mensurar. É nisso que estou apostando. Sendo assim, a única coisa que espero dessa viagem é que daqui há um ano, quando eu estiver voltando, é que tenha valido a pena!

Obs.: Nesse momento estou viajando de Dallas à Seul. À priori, pensei em escrever sobre os dois dias em Dallas, mas o tamanho do texto não permitiu isso. Uma curiosidade sobre essa viagem de agora é que saí de Dallas às 10:10h AM do dia 29/08/13 e chegarei em Seul no dia 30/08/13 às 14:55h PM, horários locais. Façam aí as contas! 🙂

1 – Programa financiado pelo Governo brasileiro com o intuito de enviar estudantes de determinadas áreas da Ciência e Tecnologia para Instituições de nivel superior fora do Brasil.
2 – Times Higher Education – Ranking mundial de Universidades
3 – Test of English for International Communication – teste de proficiência em língua inglesa que mede a habilidade de estrangeiros em se comunicar em inglês, principalmente em ambiente de negócios.
4 – Test of English as a Foreign Language – exame que tem o objetivo de avaliar o potencial individual de falar e entender o inglês em nível acadêmico